Censura: Bolsonaristas da CPI reclamam e Polícia do Senado abre investigação contra colunista da Folha

Sociólogo Celso Rocha de Barros afirma que não prestará depoimento e vê tentativa de intimidação

A Polícia do Senado abriu investigação contra o sociólogo Celso Rocha de Barros, colunista da Folha, por causa do artigo “’Consultório do Crime’ tenta salvar Bolsonaro na CPI da Covid”, publicado no dia 10.

A abertura de apuração partiu de pedidos dos senadores Eduardo Girão (Podemos-CE) e Luiz Carlos Heinze (PP-RS). Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro na CPI, eles dizem que foram vítimas de calúnia e injúria.

No artigo de opinião, Celso de Barros afirma que o presidente Bolsonaro é defendido por senadores que buscam “tumultuar a investigação mentindo sobre medicina”. O grupo foi chamado de “Consultório do Crime” pelo autor.

Girão e Heinze são os principais representantes desta ala dentro da CPI, segundo o colunista da Folha.

Nesta terça-feira (25), Celso de Barros informou à Polícia do Senado que não irá participar da videoconferência marcada pelos investigadores.

“Não é atribuição da Polícia do Senado investigar supostos delitos contra a honra de senadores da República”, afirmou o sociólogo, em petição assinada pelos advogados Luís Francisco Carvalho Filho e Phillipe Alves do Nascimento.

O colunista da Folha declarou, na mesma resposta, que os senadores são integrantes da bancada bolsonarista, “empenhada em instituir no Brasil um regime de arbítrio e de intimidação, conspirando permanentemente contra a liberdade de expressão e de imprensa”.

Os senadores integram a tropa de choque de Bolsonaro dentro da CPI e defendem o uso de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, como a hidroxicloroquina e a ivermetina.

Durante as primeiras reuniões da CPI, Heinze e Girão citaram estudos científicos inconclusivos, erraram dados ou omitiram informações sobre trabalhos que mostrariam benefícios do tratamento precoce.

O senador pelo Rio Grande do Sul registrou boletim de ocorrência contra Celso de Barros no último dia 10, data em que o artigo foi publicado na Folha.

Heinze disse aos investigadores que o colunista tentou criminalizar a “defesa legítima” que faz na CPI, “escudado em manifestações de renomados médicos e cientistas”.

Girão procurou a Polícia do Senado no dia seguinte. O senador afirmou que sofreu calúnia ao ser apontado como “cúmplice do Presidente da República na morte de mais de 100 brasileiros durante a pandemia”.

No artigo, Celso de Barros disse desafiar “Heinze, Girão, Osmar Terra (deputado federal e ex-ministro de Bolsonaro) ou qualquer outro cúmplice de Bolsonaro” a apresentar um estudo em que o presidente seja responsável por menos do que 100 mil mortes até o fim da pandemia.

Os congressistas defendem que os supostos crimes devem ser apurados pela Polícia do Senado, pois se consumaram dentro da Casa.

O órgão, então, abriu um termo circunstanciado sobre a coluna publicada na Folha, instrumento usado para apurar infrações de menor potencial ofensivo.

Celso de Barros faz alusão no artigo ao “Escritório do Crime”, grupo de assassinos de aluguel que atua no Rio de Janeiro, do qual faria parte o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro de 2020.

O presidente Bolsonaro disse, dias depois da morte de Adriano, que o ex-policial era um herói na época em que foi homenageado pelo senador Flavio Bolsonaro.

Celso de Barros afirmou à Folha que os senadores tentam intimidá-lo. Ele disse ainda que o assédio judicial é uma rotina na “era Bolsonaro”, assim como em governos que inspiram o bolsonarismo.

“Para uma turma que se dizia contra o politicamente correto, os bolsonaristas são sensíveis demais. Os senadores não querem ser responsabilizados diante da opinião pública por suas posições na CPI. O que está em discussão não é brincadeira. Quase meio milhão de brasileiros morreram”, disse o sociólogo.

O criminalista Carvalho Filho afirmou ser “lamentável” que senadores não se conformem com o direito de crítica e acionem a Polícia do Senado para intimidar o colunista.

Procurados, Heinze e Girão ainda não se manifestaram. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), também não respondeu à Folha.

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