Aécio diz que PSDB pode não ter candidato em 2022 para unir centro

Após um ostracismo de mais de três anos, no qual deixou a condição de presidenciável favorito para ser hostilizado ao votar na sua cidade natal, Aécio Neves está de volta à cena política.

O deputado federal mineiro, 61 anos, protagonizou um embate com governador João Doria (SP), principal nome do PSDB, e nesta sexta (12) assumiu a prestigiosa Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

Na sua primeira grande entrevista desde que a gravação na qual combina receber R$ 2 milhões do empresário Joesley Batista veio à luz, em 2017, Aécio analisa o panorama político e apresenta sua defesa das acusações que sofreu.

Nega ser bolsonarista, mas afirma que a vocação tucana nunca é a de uma oposição radical.

Faz várias críticas ao desafeto Doria, a quem afirma faltar experiência política e sobrar marketing pessoal, mas não o descarta como nome do PSDB à Presidência em 2022.

Vai além, herético para um partido que foi competitivo em nível federal de 1994 a 2014, e afirma que os tucanos poderão ter de abrir mão de uma candidatura para unir o que chama de centro ampliado –que vai de Ciro Gomes (PDT) a Luiz Henrique Mandetta (DEM), passando pelo apresentador Luciano Huck.

A alternativa, afirma, é ver a corrida polarizada entre Jair Bolsonaro e o PT, talvez com Luiz Inácio Lula da Silva, embora ele não creia em “jogo jogado”.

Nesta entrevista feita por telefone na sexta, Aécio celebra suas “novas páginas”, mas diz não pensar no Planalto para 2022. Palácio que quase conquistou em 2014 pelo PSDB.

O sr. é réu no Supremo e há uma série de outras investigações em curso, como a da Odebrecht. Como o sr. acha que o seu eleitor o vê? – O volume das acusações repercutiu muito na minha trajetória, na minha vida pessoal. O que ocorreu? Eu fui candidato em 2014, quando as contribuições eram de pessoas jurídicas.

Aí veio a Lava Jato, e as empresas investigadas eram as mesmas que doavam. Chamadas a depor, essas pessoas deram uma aparência criminosa para as doações.

E o caso Joesley… – O epicentro foi a armação capitaneada por um desequilibrado que ocupou a PGR, o sr. Janot, acompanhado pelo dublê de procurador e advogado da JBS Marcelo Miller.

Ele tinha obsessão de impedir a posse da Raquel Dodge como procuradora-geral, e buscou inviabilizar o governo de Michel Temer, do qual eu era o principal apoiador.

Ele chegou a me convidar um dia para ir à PGR, na presença do [chefe de gabinete Eduardo] Pelella, me propôs que eu levasse ao Temer a proposta de indicar para sua sucessão o subprocurador Bonifácio de Andrada, que havia trabalhado no meu governo. Eu nem sequer levei esse assunto ao presidente.

Isso foi antes da gravação e Dodge foi nomeada. Aí o Janot conduz toda a questão da JBS. Estou preparando um livro com todas as ilegalidades.

Como foi a conversa em 24 de março de 2017 com o Joesley? – Havia os inquéritos [da Lava Jato]. Nunca tive como pagar os advogados. Minha mãe tinha um apartamento, que oferecemos ao sr. Joesley, oferecido ao [senador pelo PSDB-CE] Tasso Jereissati, ao [presidente da Confederação Nacional da Indústria] Robson Andrade, ao [banqueiro do Itaú] Pedro Moreira Salles, ao [dono da empreiteira MRV] Rubens Menin. Com duas avaliações de mercado.

Aí cometi o grande erro da minha vida, que foi procurar esse cidadão que estava em delação.
Disse que não queria o apartamento, mas que me adiantaria o valor. Eu ia ressarcir. Não houve dolo, nem uso de dinheiro público.

A Lava Jato acabou sob cerco, sendo enterrada agora. Como o sr. a avalia? – Houve virtudes. Criminosos foram condenados, presos. Mas a criminalização da política e as arbitrariedades foram enormes. Eu mesmo assinei um documento em favor do direito de Lula de ter um processo legal.

O grande mal da Lava Jato foi misturar criminosos e gente de bem na vida política. Janot tinha pretensões políticas.

E o papel do Sergio Moro? – Sobre o Moro, não vou entrar no mérito de ilegalidades. Ele ajudou muito a fragilizar muito a Lava Jato na hora em que aceitou ser ministro da Justiça de um governo que ajudou, direta ou indiretamente, a eleger.

O sr. saiu da eleição de 2014 quase eleito, era aplaudido em restaurantes. Quatro anos depois, foi hostilizado ao votar. Como viu esse arco narrativo? – Eu venho de uma família de políticos. Política são altos e baixos.

O sr. citou a anulação das condenações de Lula. Ele foi injustiçado? – Ele merece um julgamento correto. Mas a mídia sempre avalia o momento político como definitivo. Depois dessa reviravolta da decisão do Fachin, as pessoas tendem a ver o quadro político já polarizado e o Lula recuperado. Eu não vejo desta forma. Os governos do PT foram desastrosos. Temos de apresentar uma alternativa. Não vejo esse jogo jogado.

No PSDB isso passa pela prévias de outubro? – Temos de radicalizar no centro. Temos de propor, construir um centro ampliado para fazer frente ao Bolsonaro e ao Lula. Centro ampliado tem de ter de Ciro [Gomes, PDT] a PSDB, MDB, DEM, com o [ex-ministro Luiz Henrique] Mandetta, Luciano Huck, o [governador gaúcho tucano] Eduardo Leite e o [presidente do Senado pelo DEM-MG] Rodrigo Pacheco.

Dentro do PSDB, quem tiver disposição, tem todo o direito de construir uma candidatura. Seja o [governador paulista João] Doria, Leite.

O que o PSDB tem de colocar na balança é a possibilidade de não ter candidatura à Presidência se, nesse conjunto de forças, houver uma candidatura com mais viabilidade.

Ninguém será candidato pela imposição. É uma construção. Não se constrói uma candidatura como se preside uma reunião do Lide [grupo empresarial que era liderado por Doria], com um apito na boca, dizendo quem pode falar e quem deve calar.

Meu avô dizia que devia haver um artigo na Constituição obrigando candidato a cargo majoritário ter tido ao menos uma experiência no Legislativo. Ali você aprende o contraditório, não é cercado só por gente que diz amém.

Isso falta ao governador Doria. Eu não tenho nada contra ele pessoalmente, o conheço há muitos anos.
Me lembro quando ele me procurou pela primeira vez, com muita insistência depois da morte do meu avô, para pedir que levasse seu nome ao presidente José Sarney. Ele pleiteava a presidência da Embratur [que ganhou.

O governador constituiu em torno de si o que chamamos de CCC, o Conselho do Cargo Comissionado.
São pessoas com funções de confiança do governo e que têm função partidária também. Eles se reúnem à noite com o governador para dizer que está tudo bem, que o terno estava muito bonito, a gravata era belíssima e o cabelo estava bem penteado.

Aí ele dorme na ilusão de que é o sujeito mais querido do Brasil. Acho que foram esses conselheiros que levaram ele ao equívoco de que poderia tratar o PSDB como uma legenda qualquer.

Ele cometeu um erro de avaliação e acho que aprendeu. O governador tem virtudes, mas sua obsessão pelo marketing impede que muitas dessas virtudes possam ser vistas.

A vacina não é um ativo? – Sim, seu papel foi fundamental para que o Brasil tivesse acesso a um conjunto mínimo de vacinas, mas a obsessão pelo marketing não deixa as pessoas julgarem isso positivamente.

Em relação aos governadores, por exemplo, era o espaço natural para ele assumir uma liderança. Mas ele conseguiu o oposto. Como dizia Tancredo Neves, quem quer ser general em Brasília tem de sargentear um pouco pelo país.

Falta vivência política ao governador. Mas é um dos nomes que temos em condições de nos convencer. Até agora, não aconteceu, mas talvez haja tempo para isso.

Fora do PSDB, qual o melhor nome desse centro? – Não tem um nome natural. Precisamos de um projeto para o Brasil que não seja personalista. Ele pode ter 20%, 25%, 30%. Se for para o segundo turno, tem grande chance de vitória.

O sr. foi acusado por Doria de ser bolsonarista, pelo suposto apoio ao centrão na disputa da Câmara, o que nega. O PSDB é ou não é oposição a Bolsonaro? – O PSDB é oposição. Nós nos negamos a nos aliar a Bolsonaro em Minas, por exemplo. Não teve BolsoAnasta [em oposição ao BolsoDoria] com o Antonio Anastasia [candidato derrotado do PSDB].

Mas é natural que no Parlamento haja relação entre correntes políticas. Governadores fora do Congresso podem ser mais assertivos. Condeno essa cobrança permanente.

Não é da natureza do PSDB ser uma oposição radical. Se não construirmos, o eleitorado só poderá optar pelo PT ou o Bolsonaro. Se houver mais de uma candidatura de centro, vamos nos curvar à polarização.

Defina o governo Bolsonaro. – É um governo que teve oportunidades extraordinárias e vem desperdiçando uma a uma. Mas não vejo só as agruras, há virtudes na questão econômicas.

Mas o Paulo Guedes está manietado há muito tempo. – Sim. São as oportunidades perdidas. Passos atrás em meio à tragédia da pandemia. Mas nada se compara ao mal que o PT fez ao Brasil na economia.
Nós tínhamos de apoiar o governo Michel Temer porque era uma responsabilidade com o país, e mesmo tendo de sobreviver no cargo, ele arrumou a economia.

Na política externa, foi um momento de recuperação. Estávamos submetidos ao bolivarianismo. Agora, saltamos o Rubicão e fomos para outro extremo, a subserviência ao trumpismo. Mas no meio do caminho, foi o PSDB com os chanceleres José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, que restabeleceu nossas melhores tradições.

A Comissão de Relações Exteriores, que o sr. assumiu, era presidida pelo filho presidencial Eduardo (PSL-SP), e toda a área externa é vista como um castelo do bolsonarismo radical. É um recado ao Itamaraty? – Esse é o papel da comissão, buscar recuperar o equilíbrio. Meu papel agora é suprir as lacunas que a gestão de política externa brasileira.

Temos de tentar restabelecer a política externa, temas como o ambiente, de que o Brasil se afastou. Não podemos nos arvorar como Poder Executivo, mas temos instrumentos para discutir mecanismos para permitir a reinserção maior do Brasil no mundo.

Não é simples, mas a pandemia mostrou isso da forma mais perversa. Veja a posição do governo ante a China há um ano e agora, com a necessidade de insumos e vacinas.

Globalização não é uma opção, é uma realidade. Política externa mal conduzida afeta a vida das pessoas, falta insumo, crescimento de emprego.

A comissão trata também de Defesa Nacional, e este é um governo altamente militarizado. Prevê dificuldades? – Os militares sempre gostaram da interlocução com o Congresso. Temos democratas extraordinários nas Forças Armadas. Podemos ajudar muito do ponto de vista orçamentário.

Defesa não pode ser vista com preconceito, temos de trazer a sociedade. Não pode ser algo fechado nos gabinetes militares e no do ministro da Defesa. Já recebi manifestações favoráveis das Forças.

E o comitê de supervisão da área de inteligência, área controlada de perto pelo presidente? – Preciso entender o limite dessa área de fiscalização, de forma respeitosa, vamos conversar com todo mundo. A presença de alguém que não é radical, mas não é governo, pode ajudar.

Retrospectivamente, o sr. se arrepende de ter questionado o pleito de 2014 e apoiado o impeachment em 2016? – Eu não questionei o pleito, tanto que liguei para Dilma e a cumprimentei. Questionamos se havia manipulação nas urnas e não houve resposta conclusiva.

Em relação ao impeachment, faço uma confissão. As duas últimas pessoas a aderir foram eu e o Fernando Henrique Cardoso. O que ocorreu é que a paralisação do Brasil foi tamanha que sobrou para nós a responsabilidade de liderar. Foi uma onda gigante, o PSDB não faria nada sozinho.

Do ponto de vista prático, se Dilma ficasse até o final, o PSDB poderia ter ganho a eleição em 2018.

O sr. ainda sonha em disputar a Presidência? – Não penso nisso, mas vou continuar fazendo política. Vou reescrever minha história. Teremos novos capítulos nos próximos meses. Aécio nunca foi embora. Eu ia fazer o maior governo da história do país se tivesse ganho aquelas eleições.

TRAJETÓRIA

Aécio Neves da Cunha, 61

Início na política Começa na vida pública na campanha do avô, Tancredo Neves, ao governo de Minas, em 1982. No ano seguinte, vira secretário particular de Tancredo

Nomeação É indicado para ser diretor de loterias da Caixa em 1985

Passagem pela Câmara Eleito deputado federal, fica na Casa de 1987 a 2002, por MDB e PSDB. De 2001 a 2002, preside a Câmara

Governo de Minas Eleito governador do estado, fica no posto de 2003 a 2010

Passagem pelo Senado Eleito senador, fica na Casa de 2011 a 2018. Também preside o PSDB de 2013 a 2017

Eleição presidencial É derrotado por Dilma Rousseff (PT) no segundo turno do pleito de 2014

Lava Jato É citado pela primeira vez na operação em 2015

Gravações Após explosão do caso Joesley, é afastado do cargo de senador e deixa o comando do PSDB

Nova passagem pela Câmara Assume como deputado federal em 2019. Em 2021, torna-se presidente da Comissão de Relações Exteriores da Casa

ACUSAÇÕES

  • Réu no STF, em ação enviada a SP, acusado de corrupção e obstrução de Justiça no caso Joesley Batista. Aécio diz que os R$ 2 milhões combinados eram para pagar advogados, num empréstimo pessoal, e nega obstrução.
  • Denunciado pela PGR por lavagem e corrupção em repasses de R$ 65 mi de Andrade Gutierrez e Odebrecht. Defesa afirma que doações eram para vários partidos da coligaçao, sem crime.
  • Investigado na Justiça Eleitoral sobre caixa dois da Odebrecht em 2010. Defesa nega.
  • Investigado sobre suspeitas na estatal Furnas – PGR pediu arquivamento do caso.
  • Acusação de receber propina nas obras da Cidade Administrativa, em apuração. Segundo a defesa, ela não faz sentido, pois a obra foi considera correta pelo Ministério Público e Tribunal de Contas.

Fonte: Folha de S. Paulo

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