Opinião: O que Lula e o PT costumam fazer com seus amigos?

Lula, PT e seus amigos – Enquanto Pazuello prestava seu depoimento na CPI da Covid, uma polêmica secundária tomava conta do Twitter.

Respondendo a uma provocação feita por Ciro Gomes em uma entrevista dada ao jornal Valor Econômico, que apontava Lula como o “maior corruptor” da política brasileira e que afirmava que o ex-presidente se preocupava mais com seu projeto de poder do que com o país, Lula postou que adoraria dizer que o Ciro era seu amigo, mas que o próprio Ciro não queria. Disse também que não entraria em “jogo rasteiro”. Ciro respondeu, dizendo que seu interesse não era ser amigo do Lula, mas debater projetos para o Brasil, apontando a ausência de qualquer pensamento estratégico para o país nas falas de Lula. Essa resposta gerou uma acalorada discussão entre trabalhistas e petistas. Nesse meio, vi muita gente honesta questionando o embate entre os dois, com muitos apontando que Ciro deveria “parar de brigar com o Lula”, como se fosse algo que partisse somente dele. Por conta disso, resolvi mostrar aqui como Lula costuma tratar seus amigos, para que as pessoas possam decidir se é o Ciro que tem que parar de brigar com o Lula ou se é o Lula que tem que tratar melhor seus supostos amigos.

O primeiro relato é de 1990. No ano anterior, Brizola e Lula foram adversários no 1º turno das eleições, disputando a vaga para enfrentar Collor no 2º turno voto a voto. Brizola acabou ficando em 3º por uma diferença de cerca de 200 mil votos. Qual foi seu posicionamento no 2º turno? Subiu no palanque do Lula e transferiu quase a totalidade de seus votos para Lula, embora isso tenha sido insuficiente para elegê-lo presidente. No ano seguinte, tivemos eleições para os governos estaduais e Brizola tentava governar o estado do Rio pela segunda vez (na época não existia reeleição). Qual foi o posicionamento de Lula e do PT? O esperado era apoiar Brizola em retribuição ao que foi feito em 1989, certo? Errado. Brizola ficou sem o apoio do Lula e do PT, que lançou a candidatura de Jorge Bittar, que fez um enfrentamento que passou do limite da honestidade, chegando até a insinuar a ligação de Brizola com o tráfico (como a direita fazia e faz) para tentar manchar a imagem do trabalhista[1].

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Apesar disso, Brizola foi eleito para comandar o estado novamente, mas não sem mais traumas com o PT, que teve seu auge quando a maioria do partido votou para que as contas do ano de 1994 do governador trabalhista fossem rejeitadas na Assembleia Legislativa do Rio[2], o que poderia gerar a cassação dos seus direitos políticos. As contas foram aprovadas por uma diferença de um voto.

Em 1998, Brizola aceitou ser vice de Lula em uma grande frente de esquerda que envolveu outros partidos, como PSB, PV, PCdoB e PCB. Na época, o preço que Brizola cobrou para o apoio a Lula foi apoio ao candidato do PDT no Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (na época, sem problemas com a justiça). Lembra do Jorge Bittar? Pois bem, ele defendeu fielmente o apoio ao partido de Brizola. Na época, o PT viveu uma de suas principais crises no estado, quando a base do partido votou para lançar a candidatura do deputado Vladimir Palmeira, mas foi derrotada pela direção nacional, que impôs o apoio a Garotinho, indicando Benedita da Silva na vice. Como todos sabem, FHC ganhou a reeleição no 1º turno, sem chance para a frente montada em torno de Lula. Quem foi o culpado pela derrota? Na visão de dirigentes do PT, incluindo Bittar, foi o PDT[3], claro.

A aliança com o PT em 1998 foi tão traumática que, a partir de então, Brizola não fez mais acordos com Lula, levando o PDT a apoiar Ciro Gomes (então no PPS) nas eleições de 2002. Como Ciro não foi para o segundo turno, ambos (Ciro e Brizola) apoiaram Lula no segundo turno, que venceu a eleição. Após isso, Brizola faleceu em 2004 e é bom lembrar que a recepção que teve dos militantes trabalhistas foi bastante “calorosa”. Lula, então presidente, foi chamado de traidor para baixo, com a militância trabalhista entoando o clássico “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”, eternizado na voz de Beth Carvalho. Isso era resposta a anos de hostilidade do PT contra Brizola.

Após essa época, o Brasil passou pelo terremoto do escândalo do Menslão, que fez o governo Lula balançar, mas este se manteve firme depois da crise, ganhando a reeleição contra Alckmin. Nesse período, Ciro Gomes — que era Ministro da Integração Regional — rompe com o PPS, que tinha ido para uma posição mais próxima do PSDB na oposição, e ingressa no PSB, base do governo Lula na época e continua como ministro. No fim de seu mandato, Lula está com grande aprovação e as discussões sobre seu sucessor avançam. Ciro se coloca como pré-candidato do PSB à presidência, com bom desempenho nas pesquisas. É bom lembrar que Ciro tinha sido um dos ministros que mais ajudou Lula na crise do Mensalão, trabalhando para segurar um processo de impeachment contra o presidente. Como retribuição, Lula lança a candidatura da desconhecida Dilma Rousseff e faz um acordo pelas costas do seu ex-ministro com o então cacique do PSB, Eduardo Campos, para retirar a candidatura de Ciro à presidência[4]. Retirada a candidatura, Ciro ainda aceita coordenar a campanha de Dilma. Nesse tempo, ainda fez críticas à aliança com o PMDB, apontando que Michel Temer não era uma figura confiável para ser vice-presidente. A resposta de Dilma era que Ciro estava “ressentido” e que confiava em Temer e na aliança com o PMDB[5].

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Após isso, Dilma vence as eleições em 2010, com o PSB na aliança e com o apoio de Eduardo Campos. Nesse período, a economia ainda estava em alta e Dilma conseguiu surfar na popularidade de Lula no fim de seu mandato, o que lhe rendeu dois bons primeiros anos. Entretanto, 2013 marca uma virada para a petista, que se vê diante de um levante massivo de descontentes nas ruas, insatisfeitos com a vida nas cidades, com o transporte caro e precário e com a falta de melhoria nos serviços públicos. No mesmo ano, os sinais de uma crise apontam no horizonte. Esses fatores fazem com que a aprovação da ex-presidente despencasse. Nesse período, Eduardo Campos indica que vai tentar a presidência e rompe com o PT, tirando o PSB da base, preparando as eleições de 2014. O aliado na retirada da candidatura do Ciro em 2010 passa a ser o novo alvo das críticas de Lula, que chega a comparar o ex-governador de Pernambuco com o ex-presidente Collor[6]. Campos era um político carismático, que rompeu com o PT fazendo críticas, mas que nutria uma popularidade que ameaçava Dilma e imediatamente virou inimigo. Entretanto, como bem sabemos, Eduardo Campos sofre um acidente de avião e morre na campanha de 2014. Diante disso, o PSB aposta em promover o nome da vice, Marina Silva, que tinha ido bem nas eleições de 2010. Quando Marina assume a cabeça de chapa, sua candidatura decola e chega a ameaçar o PT, que começa uma campanha pesada de destruição da sua imagem. Algo nunca visto anteriormente[7]. Detalhe importante dessa época é que Ciro Gomes rompeu com Eduardo Campos e saiu do PSB para apoiar a reeleição da Dilma[8].

Passada a reeleição apertada de Dilma, os ventos começam a soprar em uma direção nebulosa. Aécio questiona o resultado das eleições, Dilma dá um cavalo de pau à direita na economia e sua popularidade vai ao chão, abrindo a discussão sobre o seu impeachment. Ciro Gomes está lá mais uma vez na luta tentando virar votos dos congressistas para segurar o mandato da presidente. Não deu certo. Dilma perde a votação e é afastada. Nesse período, Temer (que tinha sido defendido por Dilma em 2010) articula uma aliança com o centrão e assume o governo do Brasil. Como não tinha conseguido reverter a crise econômica, e, ainda por cima, era uma figura extremamente impopular, Temer vai se arrastando até as eleições de 2018.

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Durante o segundo mandato de Dilma e o governo Temer, temos a emergência da Lava Jato, que parte para cima do sistema político brasileiro e o dizima com seus métodos duvidáveis. Lula é o principal alvo. Como resultado disso, é condenado em segunda instância e preso em 2018, o que praticamente inviabiliza sua tentativa de voltar à presidência, anunciada em 2017. Diante desse cenário, o que Lula faz? Transforma o debate político em um referendo sobre si e anuncia que qualquer eleição sem ele é fraude e não aceita apoiar ninguém de fora do PT. Pior, dá sua última facada em Ciro, esta em vários atos.

De dentro da cadeia, barra uma aliança Ciro/Haddad, o que foi revelado por Delfim Netto em entrevista ao Pedro Bial[9]. Além disso, insiste em se afirmar como candidato em um momento em que qualquer pessoa que acompanhava as notícias sabia que não seria candidato por conta da Lei da Ficha Limpa (que o próprio Lula sancionou). Por fim, negocia acordos para impedir a formação de palanques que poderiam fortalecer a candidatura de Ciro Gomes. Lula negocia a neutralidade (ou o não apoio a Ciro) do PSB e ajuda a levar todos os partidos do centrão para Alckmin. No caso do PSB, fez o partido jogar fora seu tempo de TV na campanha, aumentando o tempo de TV dos adversários e fortalecendo candidaturas como as de Alckmin e do Bolsonaro, que já se mostrava uma ameaça na época[10]. E, por fim, como não poderia faltar, os blogues petistas voltam todas as suas baterias para Ciro Gomes, que virou a vítima da vez em um processo de assassinato de reputação[11].

Sobre esse último ponto, perguntamos qual é o compromisso do Lula com o Brasil e com a democracia. Foi correto anunciar que seria candidato mesmo sabendo que isso não era verdade? Foi correto lançar uma “chapa triplex” de dentro da cadeia e jogar Haddad na campanha faltando três semanas com Bolsonaro crescendo e surfando no antipetismo? Foi correto ignorar todos os avisos de que essa estratégia daria errado e insistir nela? Não é preciso dizer muito, apenas reproduzir a fala de Paulo Henrique Amorim na época da eleição: “Lula deu um cavalo de pau na beira do precipício e jogou Haddad [e o Brasil] lá embaixo”[12].

É evidente que muita coisa tenha ficado de fora para que não saísse um texto grande e maçante, mas acredito que o essencial foi dito. Agora, diante disso tudo, deixo uma última pergunta: é possível confiar em amigos como o Lula e o PT?

Referências

Por Frederico Krepe, bacharel em filosofia pela UFJF e mestrando do Programa de Pós-graduação em Filosofia na UFJF

Fonte: Portal Disparada

Este texto é opinativo e não reflete, necessariamente, a opinião do site Brasil Independente.

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