OPINIÃO: Lula no processo tira o Ciro da jogada? Muita calma nessa hora

É sabido por todos que os processos contra o ex-presidente Lula, no âmbito da operação lava-jato, foram anulados. Não porquê o Lula é inocente e sim porque a 13ª vara de Curitiba foi considerada incompetente pelo STF. Esse novo episódio da vida jurídico-política brasileira deixou aqueles que tem simpatia pelo ex-presidente em polvorosos, afirmando que o Ciro estaria fora da disputa em 2022. Será verdade isso?

O fato é que tanto o ex-presidente quanto Ciro Gomes disputam o mesmo nicho eleitoral, esquerda e centro-esquerda. A volta de Lula ao cenário político reconstrói a polarização entre ele e o presidente Bolsonaro.

Todavia, a “polarização 2.0”, por assim dizer, abre um caminho enorme para o centro político. Segundo a última pesquisa realizada na semana passada pelo “Instituto Exame Invest Pro”, da revista Exame, cerca de 38% dos eleitores entrevistados não querem votar nos lideres dos dois polos.

Vale ressaltar que cerca de 42 milhões de eleitores, somando os votos brancos, nulos e abstenções, renegaram essa mesma polarização em 2018. É bem elementar a certeza de que essa quantidade monstruosa de eleitores que não votaram no 2º turno das últimas eleições presidenciais não sentem-se representados pelos projetos políticos Lula e Bolsonaro.

Agora façamos uma reflexão juntos: por que esses eleitores simplesmente renegaram as opções do 2º turno em 2018? A única conclusão que podemos chegar a indagação é que essas pessoas tem um perfil mais moderado, pragmático, sempre à espera de um projeto de fato viável e que não tenha a paixão como combustível.

Mas aí alguém pode ser afirmar que não quiseram o Ciro também. Sim, isso é uma verdade irrefutável, todavia, tem que se analisar a “terceira via” de 2018.

Ciro Gomes é um político muito habilidoso, é inteligente, tem uma ótima retórica, é bem articulado e tem vasta experiência na administração pública. Disto isto, agora vem uma pergunta formulada pelo advogado do diabo: por que um político com tantos predicados positivos não conseguiu decolar em 2018?

Acredito que a forma mais concisa de explicar isso, portanto, seria a análise da carreira política do Ciro Gomes nos últimos 20 anos; a última vez que o ex-governador tinha sido candidato foi no ano de 2006, quando foi eleito(em termos proporcionais) o deputado federal mais votado do país. Depois disso, nunca mais fora candidato a algum cargo eletivo.

Tratando em miúdos, ficou fora do jogo por 12 anos e isso tem um preço a ser pago, o esquecimento; principalmente entre as gerações mais jovens, dos anos 2000 pra cá.

Voltando a “avenida” criada pela reconstrução da polarização, é perfeitamente natural, diria até provável, que uma terceira via se consolide nas eleições do ano que vem, resta saber quem será o titular dessa vertente. Nomes não faltam: Dória, Moro, Huck e afins, ou algum outro que possa aparecer daqui pra lá. Mas fazendo um exercício mental, vamos analisar pragmaticamente um a um.

Governador João Doria

É fato que é um político de muita expressão, possui as 2 maiores máquinas administrativas do país, o Governo do estado e prefeitura de São Paulo. Todavia, Dória não aproveitou bem seu mandato de governador do estado mais rico do país, no qual tinha o objeto de realizar um bom governo e fazer disso uma “vitrine”, que o colocaria como um candidato viável para as eleições do ano que vem.

Ele fez de tudo pra eleger-se governador, não há como negar isso. Traiu seu padrinho político, o governador Alckmin, flertando e até mesmo fundindo-se com a onda fascista que encontrou sua amplitude máxima naquele ano, chegando a criar até um personagem jocoso que, nesse contexto, é um pleonasmo para a palavra patético. Todo mundo lembra do “bolsodória”.

Isso tem um preço, a absorção do discurso extremo pertencente à esse nicho político. Todavia, não foi isso que aconteceu. Rompeu com o Bolsonaro/bolsonarismo nos 6 primeiros meses e ficou com pecha de traidor entre os apaixonados pelo presidente. O governador é um clássico exemplo de que fazer pacto com o diabo tem um preço.

Na síntese: DÓRIA NÃO É UM POLÍTICO CONFIÁVEL, muito possivelmente disputará a reeleição para continuar no Palácio dos Bandeirantes em 2023.

Sergio Moro

Esse teve um fim tão trágico que nem Shakespeare e Bergman poderiam descrever em suas obras. Foi alçado, com a ajuda da grande mídia e a chancela do poder real, ao status de herói. Também pudera, o brasileiro médio é carente de grandes exemplos de honestidade e honradez de agentes públicos com o erário.

Durante décadas e décadas, o povo brasileiro sempre teve a impunidade, no que diz respeito a crimes contra o erário, como regra e isso cria um justo sentimento de revolta. Pegue esse sentimento e some com a imagem de um de um juiz severo, potencializada pela grande imprensa, que pune efetivamente agentes políticos e temos a figura do Herói.

Todavia, esse herói artificializado era de barro e quebrou, primeiro com a “vaza-jato” e logo em seguida pelo próprio STF. Logo, Moro foi desconstruído e vai derreter muito mais até 2022. Muito possivelmente não será candidato.

Luciano Huck

Sem nenhuma dúvida, o candidato perfeito para o establishment. Jovem, carismático, “filantropo”, empreendedor e que agrada ao mercado financeiro, sem falar que tem, todos os sábados a partir das 15:00h, um palanque eleitoral há mais de 10 anos na principal emissora do país.

Sim, é um candidato viável para o poder real, para a Faria Lima e para o pensamento liberal brasileiro. Só resta saber se vai ter coragem de disputar um pleito tão polarizado. Só o futuro dirá.

Ciro Gomes

E, por último, tem o Ciro Ferreira Gomes. Político experiente, 40 anos de vida de pública e a frente de cargos de grande relevância na administração pública brasileira. O que destaca Ciro do restante dos candidatos é um projeto arrojado e exequível que ele capitaneia, pontuando sempre tudo que irá fazer caso seja eleito.

Outro ponto positivo para ex-ministro da Fazenda é a equipe, ele possui ao seu redor vários expoentes da área econômica brasileira(muito deles professores), dentre eles, podemos citar: Nelson Marconi, professor da FGV; Roberto Mangabeira, professor da Universidade de Harvard e um dos maiores intelectuais brasileiros vivos e Mauro Benevides Filho, Deputado Federal e professor de economia da Universidade Federal do Ceará.

Do ponto de vista eleitoral, teve 13% do votos válidos na eleição para presidente em 2018, sendo assim o 3º colocado na disputa. Em qualquer pesquisa eleitoral pra presidente, sempre figurou de 11 a 13%, o que demostra, factualmente, um eleitorado cristalizado, que ele mesmo intitulou de “turma boa”.

Esse é o concreto fato que o torna uma opção viável pelo centro à polarização. Ciro não é criado, não é artificializado, ele já parte pra corrida com um eleitorado considerável.

Afirmar que o Ciro “morreu” com a volta de Lula ao processo é simplesmente não fazer a leitura correta sobre a mecânica das eleições do próximo ano. Ele tá vivo, bem vivo.

Muita calma nessa hora.

Por Hebert Cordeiro, bacharel em Direito e ativista político.

Este texto é opinativo e não reflete, necessariamente, a opinião do site Brasil Independente.

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