Opinião: “As origens ideológicas de PT e PSDB”

“As origens ideológicas de PT e PSDB” – Nos últimos dias apenas um assunto, fora a CPI da Covid, vem ganhando repercussão nos veículos de comunicação e redes sociais: trata-se do encontro amigável entre os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Lula. Figuras de destaque no cenário político brasileiro, os dois são os principais protagonistas da chamada Nova República, iniciada em 1985. Além de terem atuado juntos pelo fim da Ditadura Militar, os dois foram líderes e responsáveis pela maior rivalidade partidária do Brasil, lembrando os tempos de UDN-PTB. O país ficou polarizado entre PT e PSDB dos anos 1990 até 2014, quando os tucanos começaram a perder força na oposição ao petismo e cedeu espaço para o meteórico fenômeno do bolsonarismo. Este texto busca mostrar que, apesar de apresentarem mudanças político-ideológicas, petistas e tucanos são herdeiros da mesma raiz ideológica: o pensamento uspiano, capitaneado pela Universidade de São Paulo (USP).

Fomos forçados a acreditar que PT e PSDB são representantes de projetos antagônicos de país. Pensando com a cabeça de quem se denomina de esquerda, os petistas representariam os interesses dos mais pobres e os tucanos dos mais ricos. Vermelho e azul seriam, na verdade, uma divisão nítida das classes sociais e a cada eleição presidencial os progressistas são conclamados a derrotarem o elitismo peesedebista. Apesar de reconhecer que são partidos diferentes e com projetos que contém suas oposições, os números 13 e 45 estão mais próximos do que podemos imaginar. O encontro amigável entre FHC e Lula que, dificilmente terá impacto eleitoral se tratando de 1º turno, evidencia uma aproximação quando o assunto é a raiz ideológica dessas duas figuras. O eleitor fiel do PT pode não enxergar com nitidez, mas é evidente e factual que PT e PSDB são resultados da atuação política de um conjunto de intelectuais que tiveram a USP (ou suas áreas de influência) como casa.

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Esse encontro, “com muita democracia no cardápio”, utilizando um termo usado pela conta oficial do Lula no twitter, na verdade é um ato simbólico de duas figuras que enxergam com preocupação a desestabilização da democracia burguesa que o bolsonarismo desencadeou, através de suas ações autoritárias e atrapalhadas. É o desespero de quem por anos administrou esse tipo de democracia, pouco vantajosa para um país subdesenvolvido ou dependente, com estabilidade e que agora se sente ameaçado por um outsider que surgiu para contestar de forma reacionária e demagógica esse modelo de democracia. Para FHC o desespero é ainda maior, pois Bolsonaro ocupou o lugar que outrora foi do seu partido. Enquanto Lula busca se beneficiar deste desespero para reforçar sua imagem de pacificador, conciliador e salvador da pátria. No fundo, ambos carregam o mesmo objetivo: enfraquecer Bolsonaro, tomar as rédeas da democracia burguesa, estabilizando-a e garantindo os privilégios e contradições que ela desenvolve.

Esse objetivo é aceitável, quando tratamos de FHC, um intelectual e político que nunca negou seu alinhamento com as classes dominantes. O intrigante é ver Lula buscando esse horizonte, mesmo tendo sido vítima das contradições dessa democracia que não hesitou em prendê-lo num processo obscuro e provas factuais. Ainda assim, ele retorna ao tabuleiro político com as velhas ilusões, buscando ser mais uma vez o garantidor à esquerda desse modelo de democracia. E esse objetivo está vinculado as raízes uspianas dessas duas figuras. Diferenciando-se da intelectualidade cepalina e isebiana, a USP abandonou em suas reflexões teóricas, a preocupação com temas como imperialismo e nacionalismo. Através de uma variedade de autores, o pensamento uspiano transferiu a atuação ideológica e consequentemente política para outros campos, como o aperfeiçoamento da democracia.

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Mas que tipo de democracia seria essa? É a democracia tutelada pelas antigas classes dominantes que na conjuntura dos anos 1980, quando surgiu PT e PSDB, buscavam derrubar os militares e colocar em seu lugar uma democracia maquiada que não tocasse na estrutura política, social e econômica que sustentava capitalismo dependente brasileiro. Essa democracia a ser aperfeiçoada, estaria constantemente em perigo, seja pelos comunistas ou trabalhistas que começaram a ser tratados por esses intelectuais como populistas. Nascidos geograficamente em São Paulo, PT e PSDB foram resultado político desses intelectuais. FHC, intelectual que se formou diretamente na USP, foi figura-chave na formação do PSDB que inicialmente se colocava como um partido de centro-esquerda, influenciado pelas ideias de “terceira via” do Anthony Giddens. O PT também teve influência de intelectuais dessa universidade, como Florestan Fernandes, Antonio Candido e Octávio Ianni, assim como foi palco de atuação de outros que sempre estiveram na órbita de influência da USP, caso de Sérgio Buarque de Holanda. Mas um intelectual que melhor encarna a ligação ideológica entre tucanos e petistas é Francisco Wellfort, um dos fundadores do PT e ministro de FHC. Foi ele o responsável pelo desenvolvimento do conceito que melhor representa as raízes ideológicas de PT e PSDB: o populismo, utilizado como artifício “científico” para explicar uma variedade de fenômenos.

Cada um a seu modo e dentro do seu campo, PT e PSDB sempre se colocaram como alternativas moderadas e responsáveis. A inicial radicalidade petista era apenas aparente, pois na verdade o partido foi fundado sob a ideia de ser uma “nova esquerda” que não se misturava com o autoritarismo dos comunistas stalinistas e muito menos com o populismo caudilhesco dos trabalhistas, representados por Leonel Brizola nos anos 1980. Essa radicalidade era tão aparente e superficial que a transformação do partido foi nítida com o passar dos pleitos eleitorais, resultando na carta aos brasileiros escrita ou assinada pelo Lula. O PSDB também foi fundado buscando se diferenciar do que tinha de antigo ou atrasado, sendo resultado de uma cisão do PMDB que criticava abertamente as práticas clientelistas do partido herdeiro do MDB. Contra essas práticas mofadas, foi fundado um partido que inicialmente apresentou-se como de centro-esquerda moderada e foi se transformando, principalmente após sua entrada no Governo Itamar Franco, numa organização de centro-direita moderada e comprometida com políticas privatistas.

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Moderação é a palavra que marca petistas e tucanos. As duas organizações cresceram e tiveram seu auge político e eleitoral justamente quando passaram a adotar o papel de moderadores, dentro de seus respectivos campos. Essa moderação, oriunda de uma raiz ideológica que coloca a USP e São Paulo como carro chefe da política nacional, desenvolveu um tipo de direita e esquerda diferente da vista antes do golpe civil-militar de 1964. Se antes do golpe (e até depois do golpe, pois a linha dura era nacionalista, apesar de ser um nacionalismo de fins com aliança estratégica com o capital estrangeiro) direita e esquerda eram, majoritariamente, nacionalistas a partir da hegemonia PT-PSDB o Brasil passa a ter um forte sentimento anti-nacionalista nos dois campos políticos. De um lado, nacionalismo para os tucanos representavam um atraso frente a seus interesses privatistas; do outro lado, os petistas jamais se preocuparam em desenvolver um nacionalismo de tipo crítico (como o visto nos países bolivarianos, aliados regionais do PT) e anti-imperialista. Isso fez com que, apesar de não terem a mesma política privatista vista nos governos do PSDB, foram cúmplices do capital estrangeiro e até incentivadores de seus interesses, vide os megaeventos esportivos como a Copa do Mundo que encheu os bolsos das multinacionais.

Além do anti-nacionalismo e defesa da democracia burguesa, aquela meramente formal, petistas e tucanos também se alimentaram do anti-trabalhismo ou anti-varguismo que pode ser visualizado em críticas de FHC e Lula ao legado da Era Vargas. O período em que o Brasil mais cresceu, formando sua indústria e estatais, é considerado pelos intelectuais que rodeiam esses partidos como sinônimo de autoritarismo, corporativismo, populismo e até fascismo. Brizola era visto como um continuador desse projeto falido que teria morrido após a queda de Jango. Daí que se o PSDB e FHC foram responsáveis por privatizar estatais criadas por Vargas, como a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional, o PT e Lula foram incapazes que lutarem por um processo de reestatização dessas e outras empresas; contrastando com as práticas vistas por Hugo Chavéz e Evo Morales, ambos representantes do bolivarianismo já citado.

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Também está claro as razões do Brasil ter tido sua desindustrialização desenvolvida por PSDB e PT, tendo em vista a concepção anti-nacionalista e anti-varguista dessas siglas que FHC e Lula representam. A moderação e responsabilidade uspiana, seja ela à direita ou à esquerda, não permitem a PSDB e PT questionar o enfraquecimento da economia nacional, como fizeram, cada um a seu modo, direita e esquerda entre os anos 1950 e 1960. Por isso que dificilmente a direita dos anos 1960 seria responsável pelas privatizações dos tucanos (pelo contrário, a linha dura militar até expandiu o número de estatais no país), enquanto a esquerda dos anos 1960 dificilmente seria cúmplice e alimentadora dos interesses estrangeiros como foi o PT durante 13 anos.

A direita conseguiu desenvolver uma alternativa reacionária e torta a moderação e responsabilidade tucana. Já a esquerda não conseguiu sair da hegemonia petista. Ciro Gomes, principal opositor do petismo no tabuleiro político dentro do campo progressista, ainda está preso a algumas concepções uspianas. Seu passado no PSDB e suas menções pejorativas ao caudilhismo são mostras dessa prisão. Entretanto, sua entrada no PDT e contato com o ideal trabalhista, fez ele avançar e romper em partes com a docilidade PSDB-PT. Seu nacionalismo econômico é um exemplo claro dessa mudança, assim como seu reconhecimento da importância do período Vargas. Isso o configura como o político que mais se aproxima da antiga esquerda nacionalista e anti-imperialista dos anos 1960, dentre aquelas figuras com alcance nacional.

Porém, de forma hegemônica, a esquerda ainda se mantém presa aos paradigmas ideológicos da USP. Não consegue pensar para além desse modelo falido de democracia e abandonou antigos debates como o imperialismo e sua atuação, por exemplo. Já a direita (ou parte dela) tenta retornar a esses paradigmas, após a aventura bolsonarista ter custado caro para o campo que se encontra prestes a ter que apoiar Lula num eventual 2º turno contra Bolsonaro. O combate a alternativas toscas, como se apresenta o bolsonarismo, não invalida a crítica a um modelo tutelado, moderado e responsável de esquerda (e também de direita) que não consegue enxergar atuação política e reflexão intelectual fora dos círculos paulistas.

Por Itamá Nascimento

Fonte: Portal Disparada

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