Opinião: Amazon expõe efeitos de práticas antissindicais nos EUA

Há pouco mais de uma semana, o mundo pôde observar o poderio e o alcance das práticas antissindicais colocadas em prática pelas grandes empresas dos Estados Unidos.

Por Fernando Damasceno*

Após meses de campanha, no último dia 9 de abril os trabalhadores de um centro de distribuição da Amazon, em Bessemer (Alabama), decidiram (por 1.798 votos a 738) pela não criação de um sindicato para defender seus interesses junto à empresa.

Nos EUA, os sindicatos são organizados por empresas. Chamado de “locals” em muitas regiões, os empregadores são obrigados a aceitar a sindicalização de seus funcionários, desde que estes, por maioria, decidam se filiar.

A campanha do Sindicato de Varejo, Atacado e Lojas de Departamento chamou a atenção do mundo político e empresarial ao longo das últimas semanas. A Amazon conta com cerca de 800 mil funcionários em todo o país. Se a maioria dos trabalhadores de Bessemer decidisse pela fundação de um sindicato, havia a expectativa de um efeito-cascata que atingiria outras regiões.

Amazon não brinca em serviço

A Amazon não se tornou gigantesca à toa. Práticas antissindicais estão no seu DNA. Entre suas estratégias ao definir onde serão instalados seus centros de distribuição, está a não existência de sindicatos locais e a escolha de cidades com escassas vagas de emprego.

Bessemer é um caso exemplar. Trata-se de uma cidade carente, com cerca de 30 mil habitantes, cheia de mazelas sociais e com grande carência de oportunidades de trabalho – no passado, a região foi um conhecido polo industrial. A Amazon oferece um salário de US$ 15 por hora (no Alabama o valor é de US$ 7,5 por hora) e alguns benefícios considerados como raros nesse setor da economia, como o pagamento de horas extras e descontos em consultas médicas, por exemplo.

Além disso, empresas como a Amazon sabem que é preciso pulverizar seus centros de distribuição por todo o país não apenas por uma questão de logística, mas também para evitar que se formem grandes grupos de trabalhadores em uma só unidade. Ao contrário de uma fábrica de automóveis ou de uma indústria do setor químico, é fácil transferir seus armazéns para outras cidades conforme surjam “empecilhos” para os negócios, tais como sindicatos organizados.

O discurso padrão dos executivos da Amazon há anos é o mesmo: seus funcionários não precisam de sindicatos porque recebem salários e benefícios acima do que o mercado oferece.

Nos dois meses que antecederam a eleição de 9 de abril, a Amazon jogou pesado para evitar que seus funcionários votassem pela fundação do sindicato. Mensagens de texto, panfletos nos banheiros e campanhas audiovisuais foram promovidas pela empresa. Há também denúncias de assédio para inibir a participação dos trabalhadores na votação.

Por todo o país, os trabalhadores da empresa se queixam do ritmo intenso que lhes é exigido na organização e no despacho dos produtos vendidos. Ao invés de oferecer alternativas para amenizar efetivamente os danos causados aos funcionários, a empresa produz campanhas incentivando medicamentos para dor e o uso de meias de compressão para evitar problemas físicos.

Somente em 2020, a Amazon alcançou um lucro de US$ 386 bilhões

Biden e o movimento sindical

O debate no Alabama ganhou ainda mais repercussão devido ao recente engajamento do presidente Joe Biden em prol do movimento sindical do país.

No final de fevereiro, o recém-empossado presidente veio a público para defender o direito de todos os cidadãos norte-americanos se sindicalizarem.

“Trata-se de uma escolha vital importância, que deve ser tomada sem intimidação ou ameaça por parte dos empregadores”, afirmou Biden, na ocasião.

Ao mesmo tempo, Biden estimulou uma histórica discussão no Congresso Nacional: uma reforma trabalhista que permita uma expansão dos direitos de negociação coletiva, além de facilitar os entraves burocráticos para a fundação de entidades sindicais nos Estados Unidos.

Se aprovada, a reforma será a mais ampla reforma trabalhista desde o governo de Franklin D. Roosevelt, no começo dos anos 1930.

Fernando Damasceno é jornalista e mestrando em Relações Internacionais.

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